Como já vislumbrado em Tempo, o Código de Autoridade dos Quadrinhos foi a reposta da indústrias a um estudo realizado por psicólogos e psiquiatras que relacionara as imagens e os balões de fala, com a onda de violência infanto juvenil que varria os Estados Unidos nos anos 1950. Os autores por trás desse pensamento contemplaram (ainda que de forma contrária e, portanto, negativa) o potencial aqui proposto, ao sugerir que as histórias nos quadrinhos, e futuramente nas telas, podem ter impacto nos pensamentos, escolhas e ações de crianças.

Entre tantos nomes que fizeram parte dessa tocante preocupação, um se destacou. O psiquiatra Frederic Wertham popularizou seu ponto de vista ligando-o a um temor social crescente na década de 1950: o crime e a delinquência juvenil. “Sua alegação era a de que a sexualização da mulher e a romantização da violência eram uma “destilação da maldade” (Cary Adkinson).

O doutor Wertham não estava disposto a contar palavras ou conter seu ponto de vista. Foi nessa mesma época que ele reuniu todos os seus pensamentos em um livro intitulado a “Sedução dos Inocentes” (“Seduction of Innocent”, 1954).

A obra continha vários depoimentos, exemplos tirados diretamente dos quadrinhos e do mundo real, e culminou na criação que todos os pais norte-americanos queriam: um vilão contra o qual lutar.

Cary Adkinson, autor de O Espetacular Homem-Aranha e a Evolução do Código dos Quadrinhos: Um Estudo de Caso em Criminologia Cultura, se propôs a estudar o papel dessa interferência. Ele resumiu o pensamento dos estudiosos que a desenvolveram como uma sugestão de que os quadrinhos não apenas poderiam influenciar as pessoas a adotar comportamentos criminosos e agressivos, mas também causar nas crianças e adolescentes uma repulsa pelas autoridades.

Capa de “Seduction of the Innocent

Reprodução de: Wikipedia

“[…] Willie sempre foi um leitor fanático de quadrinhos. Ele “enlouquecia” com eles. […] Vendo todas as imagens de brutalidade, tiroteios e os intermináveis e glamorosos anúncios de armas e facas, sua tia ficara alarmada […] e não permitiu que ele os trouxesse para dentro de casa. […] ‘Eu não gostava que lesse esses quadrinhos […]”. […] Aqui está o bandido de aparência lasciva dominando a menina que está vestida (se essa é a palavra) para um clima muito quente […] na típica posição pré-estupro. Mais tarde, ele ameaça matá-la: ‘Sim, somos nós, seus macacos, e temos um velho amigo seu aqui… Agora, a menos que você queira ver algo fatal acontecer com ela, você vai dar adeus a esse ouro e sair daqui!’. Aqui está a violência em abundância, violência no começo, no meio, no final […]”.

                                                     

Frederic Wertham, “Sedução dos Inocentes”

Em seu texto Censura nas HQs: o Código dos Quadrinhos, Raul Cassoni traça as soluções encontradas pelas empresas para se manterem no mercado e atender as exigências desse novo sistema, assim como a seus efeitos. Segundo ele o Selo, ou Código dos Quadrinhos, foi capaz de manter a indústria dos quadrinhos viva, porém com um alto custo”

Os escritores e desenhistas tinham que pensar seus trabalhos não apenas para serem aprovados, mas também para evitar a censura, “as histórias eram revisadas, direcionadas às faixas etárias condizentes ao conteúdo das histórias, de acordo com o código, e por diversas vezes censuradas. […] corrigindo falas consideradas exageradas ou inapropriadas e substituindo ou apagando imagens tidas como violentas, sensuais ou chocantes […]”, completa o autor.. A luta constante, tal como as limitações em seus trabalhos e imaginações, os cortes e as alterações levaram muitos artistas do ramo a desistirem do trabalho.

“Infelizmente, os quadrinhos ainda são vistos em muitos meios como algo inapropriado, infantil, ou um mero entretenimento barato.”

                                                     

Raul Cassoni, professor, historiador e fã de quadrinhos e tudo que é GEEK,

 autor de ‘Censura nas HQs: o Código dos Quadrinhos