“Eu acho a Marvel muito legal, é tipo uma diversão para assistir porque tem aqueles poderes, e aí tem tudo. Tem o Hulk, tem Homem de Ferro, tem Capitão América, é guerra, é batalha […] eu acho que meu personagem favorito é o Capitão América porque quando ele começou ele não era daquele tamanho todo, ele era fraquinho, mas se tornou forte […] Quando o Thanos estalou os dedos e metade da população, ele (o gavião o arqueiro) não desistiu, ele seguiu lutando, mesmo sabendo, mesmo que bem lá no fundo, que aquilo não traria a família dele de volta, então eu aprendi com ele a nunca desistir. […] A Marvel também explica coisas né? Porque não só é aqui no Brasil, como é lá nos Estados Unidos, como é na Itália, como é na Europa. Não é só aqui que tem isso (o racismo), é no mundo todo. Então, assim, eu acho que não é legal ter essas coisa (o racismo).”

                                                     

  João Pedro Rossi, 10 anos

Esse é o depoimento de João Pedro Rossi, de dez anos, que assiste aos filmes da Marvel desde os seis, por influência de sua família.  Uma das tantas casas em que as pessoas têm um carinho especial por esse mundo fantástico.

Talvez João ainda não tenha percebido a totalidade disso: para ele, assim como para muitos outros fãs, os filmes dos estúdios e os heróis que os protagonizam são muito mais do que entretenimento. São as histórias que o inspiram, o lar onde habitam seus exemplos de vida e mesmo de onde retira conhecimento ou curiosidade para responder e fazer as perguntas mais estranhas nas aulas, sejam elas de física, história, biologia ou sociologia.

É bastante comum que essa associação não seja de fácil assimilação. Em geral, blockbusters são subestimados de diversas formas, tidos como matérias de baixo valor cultural, humano, reflexivo ou social. Logo, é simples concebê-los quando ligados à seguinte questão: como um conjunto de seres humanos superpoderosos, em roupas apertadas e tão fora da realidade, poderiam se basear no, ou influenciar o real?

A resposta é, de fato, muito ampla: de várias formas. Desde a filosofia, na construção da magia, até a influência na escolha de carreira de uma pessoa real. Assim, a realidade gira constantemente em torno dos mais de 30 títulos que compõe o “Universo Cinematográfico da Marvel” (“UCM” para os íntimos, do original “Marvel Cinematic Universe”, “MCU”), e de formas bastante inusitadas. Seja direta ou indiretamente, eles têm impacto sobre a psique e podem ser o estopim para as mais variadas e profundas discussões, mudanças e inspirações.

Nos estudos sobre comunicação, há uma proposta conhecida por “mito da objetividade jornalística”. Nela, é considerado impossível que um produto jornalístico, independente do assunto ou formato, seja completamente imparcial. E o motivo disso seria que, por trás de cada matéria, programa, imagem, palavra ou áudio, de cada processo em geral, há um ser humano com certa bagagem de mundo. Bagagem essa que pesa em seu subconsciente a cada etapa e que, consequentemente, interfere no resultado. E isso também se aplica a sétima arte.

Claro que o cinema não tem obrigação de ser imparcial ou objetivo, isso é fato, e não é disso que essa conexão se trata. Mesmo na ficção mais extrapolada, a realidade de seu criador se infiltra, pode ser na forma de metáforas, de linguagem verbal ou visual, mas, de alguma forma, está presente.

Em seu artigo, o autor Mauricio Ribeiro, graduado em Relações Internacionais, traduziu muito bem esse pensamento através da seguinte afirmativa: “Filmes nunca são objetivos ou culturalmente neutros, mas sim transcrições construídas da realidade, sendo sempre subjetivos. Podemos olhar para os filmes como ferramentas importantes para entender narrativas culturais particulares de eventos ou tópicos, sendo isto a constituição mútua da estética e da política internacional”.

E é nesse pensamento, e em alguns outros, que este texto se baseia. Na visão e nas palavras de tantos que vieram antes e que já sentiram o impacto proposto em um momento ou em vários, tendo ou não percebido isso.

Independente de formato, gênero, objetivo ou orçamento das produções, a visão de roteiristas, diretores e atores muda a dinâmica do filme. Cada um deles posiciona no enredo pequenas dicas, metáforas e contextos que têm o incrível potencial de fazer refletir, de gerar curiosidade e, direta ou indiretamente, transmitir conhecimento. Já há muito no que se pensar apenas com base nisso, mas se a ideia não parece concreta o suficiente, então relembrar os gêneros cinematográficos e suas especificidades pode ajudar.

Quando se fala que um filme é ficção ou ficcional, significa que nele há coisas de fora de nossa realidade, coisas impossíveis, mágicas. No entanto, o gênero é muito mais amplo do que isso. Algumas de suas subdivisões, como ocorre com a ficção científica, ficção histórica e muitos outros, determinam que um filme, para ser classificado nessa categoria, precisa tratar o irreal tendo base no real. Em outras palavras, precisa ter informação verdadeira, crível e provada, ainda que imersa ou acrescentada a ponto de se tornar apenas o estopim para uma realidade hipotética.

Ficção […]

2 Elaboração da imaginação; criação imaginária. […]

3 Produto da criação fantasiosa; fantasia. […]

5 LIT, CIN, TEAT Criação artística em que o autor revela uma leitura exclusiva e original da realidade.

EXPRESSÕES Ficção científica, LIT, TEAT, CIN, TV: obra artística cujo enredo se baseia numa visão fantasiosa, porém, muitas vezes, admissível a respeito dos desenvolvimentos científicos ou tecnológicos modernos.”

(Dicionário Michaelis)

Tudo isso, todas as possíveis informações, fatos, conhecimentos, experiências, críticas e traduções sociais, são consumidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Uma escala que não é alcançada por outros métodos, ao menos não com tamanha facilidade. A realidade, mesmo mascarada por grandes efeitos, enredos fantásticos e outros atrativos de eficácia comprovada, ainda é a realidade. Entendê-la, mesmo que por metáforas e por suas implicações em vidas de personagens fictícios de outras galáxias ou universos, ainda é entendê-la.

ving. ulti

Fãs lotam cinema em Salvador para pré estreia de “Vingadores: Ultimato”

Reprodução de: A Tarde

Os filmes, sejam da Marvel ou qualquer outro exemplo de ficção científica, têm a capacidade de traduzir teorias físicas de nível superior em uma conversa fiada de natureza cômica (quem não se lembra do “Assalto no Tempo”: “quando você viaja para o futuro, o presente se torna seu passado…” (Professor Hulk) que faz menção às teorias de Einstein?). Para além disso, eles também possibilitam que o expectador sinta a real sensação de ver um herói, um exemplo e, por vezes, um amigo que nunca se conheceu, passar pelas piores e mais dolorosas situações, e, por esse motivo, fazem refletir para além de mundos e problemas individuais. 

Exemplos para isso podem vir de todo lugar, de conversas aleatórias na rua até rolando o feed do Facebook em um momento de tédio. Nas redes sociais, mais especificamente em grupos de fãs do estúdio cinematográfico, as mais variadas discussões são iniciadas por um post que, inicialmente, era para ser apenas engraçado , um “meme”. Um exemplo visual de que um produto cultural e popular pode trazer um grupo para uma discussão política, social e científica ou se tornar um tópico difícil, aparentemente chato e sensivelmente distante, mais fácil de ser assimilado. 

Post de Germana Viana e comentários deixados nele

De forma direta ou indireta, em diferentes níveis, o UCM foi um marco na vida de pessoas ao redor de todo o mundo. Um símbolo para diferenciar um antes e um depois. Uma bandeira fortemente fincada na vida das bilhões de pessoas ao redor de todo o mundo que transformaram cinemas em estádios de futebol, vibrando infinitamente pelo retorno de seus personagens favoritos, celebrando seus feitos e lamentando suas perdas.

Vamos voltar para João Pedro, um menino de dez anos que ainda está se posicionando no mundo. Ele consegue assistir essas obras, contemplar problemas tão graves quanto o racismo no mundo, vê-lo sendo desenvolvido na vida de seus personagens favoritos e chegar à conclusão de que é algo socialmente errado. Um dia, possivelmente, essa criança vai se tornar um adulto com essas mesmas crenças e, consequentemente, seu legado para a humanidade será melhor por isso. E mesmo que ele encontre desafios em seguir com esse pensamento,  outro herói o ensinou a jamais desistir e a sempre lutar pelo que acredita. 

Um bom exemplo é o estudo Super-Heróis como Recursos para Promoção de Resiliência em Crianças e Adolescentes. Desenvolvido por um filosofo (Gelson Vanderlei Weschenfelder) e dois psicólogos (Chris Fradkin e Maria Angela Mattar Yunes), o trabalho trata a identificação de crianças “desfavorecidas psicossocialmente”, com as dificuldades que os heróis enfrentam em suas vidas fictícias.

Segundo os profissionais, “[…] as similaridades compartilhadas por esses dois grupos, super-heróis na fase Pré-Capa/Pré-Máscara e os riscos vividos por crianças e adolescentes menos favorecidos socialmente, podem ser a chave ou o motor de desenvolvimento para o empoderamento de pessoas que vivem uma multiplicidade de sofrimentos […]”. Eles relacionam isso a carência nacional por programas que promovam desenvolvimento individual e melhores condições de vida e de convivência social. Nesse sentido, criar exemplos onde há mitos seria uma, entre várias, das formas de suprimir essa necessidade e entrar em um caminho que levaria há oportunidades justas de expressão e, consequentemente, a um país menos desigual.

Com isso em mente, e uma visão bastante idealizada do mundo, é possível contemplar a questão: se todo o público do UCM, todas as gerações de homens, mulheres e crianças que lotam as salas de cinema ao redor do mundo forem atingidos por um terço do impacto que esse universo teve sobre João, o futuro que nos aguarda não poderia ser muito mais pacífico, igualitário e justo?

João Carlos Fuentes, em seu trabalho Super-Heróis e outros mitos modernos: aplicação pedagógica para reflexões filosóficas e formação ético-moral de jovens e crianças, pondera que  “desde a antiguidade, o ato de contar estórias tem um importante papel na formação intelectual, moral e ética dos indivíduos, e consequentemente da sociedade por estes formada”. E tudo começa nas crianças e jovens, por serem mais suscetíveis a sugestões e aos encantos de narrativas fantásticas.

Esta linha de raciocino se estende para a contemporaneidade. Com a diferença de que os heróis e mitos de hoje impactam em escala global. Muitos estudos, em diferentes áreas, sugerem essa ligação. Seja atribuindo à ficção o status de exemplo, de responsável por causar comportamento agressivo ou de recurso para que os jovens (futuros adultos) desenvolvam seu senso ético-moral da melhor forma possível.

Um possível, e bem recente, exemplo poderia ser o caso de Bridger Walker. O menininho, que tem os Vingadores como ídolos e heróis, que, em 2020, não pensou duas vezes antes de se colocar na frente da irmãzinha para protegê-la do ataque de um cachorro, se machucando no processo.

Bridger Walker após o incidente

Reprodução de: G1

Reação do público a cenas de Vingadores: Ultimato

Reproduçãoe: Canal Clip Channel

No UCM, a Manopla do Infinito é uma luva mágica, forjada no coração de uma estrela por anões ferreiros de experiência milenar, com o poder de sustentar o poder reunido das seis “joias do infinito” (“Infinity Stones”).

É ela que possibilita ao titã louco, Thanos, o estalo que acaba com metade da vida no universo e é por ela que se desenvolvem algumas das sequências de luta mais lindas e emocionantes do estúdio. Aqui ela será a base de sustentação que agrupa e organiza alguns conjuntos de conteúdos que irão culminar na afirmação: filmes blockbuster, em especial os filmes da Marvel, podem ser, e muitas vezes o são, mais do que apenas entretenimento.

Nos filmes, as singularidades, reunidas na manopla abaixo, representam conceitos chave para a existência do universo e de toda vida contida nele. Partiremos desses conceitos para a organização desta reportagem. Porém, o cosmos aqui referido é um pouco mais específico. Vale lembrar também que a totalidade de seu significado é um pouco divergente do que a definição científica, estando preso aos limites do “UCM”. Aqui, analisaremos a possibilidade de se ver esse material como fonte de conhecimento, inspiração e motivação.

Tempo será traduzido como história e, assim, a joia verde será a história da Marvel, desde que foi fundada até o que se conhece hoje;

A pedra azul que representa o Espaço representará o alcance que os filmes tiveram, os números que atingiram e as marcas que ultrapassaram;

O roxo da joia do Poder tratará o potencial inato a esses filmes, enquanto possíveis origens para conhecimento e transformação;

A gema da Realidade conversará com os pontos em que a ficção encontra o real, seja na ciência ou na sociedade e como isso se traduz em informação;

Mente se ligará a inspiração, em como é possível encontrar, nas jornadas dos heróis, os prelúdios para os mais diversos trabalhos, mudanças e decisões;

Por fim, mas não menos importante, a Alma refletirá as motivações e exemplos em que os filmes podem se transformar, dependendo de quem os assiste.

Clique nas joias da manopla a baixo, viaje através deste universo fantástico e pondere a questão: e se… os filmes da Marvel forem pensados como mais do que apenas entretenimento?

“Eu acho a Marvel muito legal, é tipo uma diversão para assistir porque tem aqueles poderes, e aí tem tudo. Tem o Hulk, tem Homem de Ferro, tem Capitão América, é guerra, é batalha […] eu acho que meu personagem favorito é o Capitão América porque quando ele começou ele não era daquele tamanho todo, ele era fraquinho, mas se tornou forte […] Quando o Thanos estalou os dedos e metade da população, ele (o gavião o arqueiro) não desistiu, ele seguiu lutando, mesmo sabendo, mesmo que bem lá no fundo, que aquilo não traria a família dele de volta, então eu aprendi com ele a nunca desistir. […] A Marvel também explica coisas né? Porque não só é aqui no Brasil, como é lá nos Estados Unidos, como é na Itália, como é na Europa. Não é só aqui que tem isso (o racismo), é no mundo todo. Então, assim, eu acho que não é legal ter essas coisa (o racismo).”

                                                     

  João Pedro Rossi, 10 anos

Esse é o depoimento de João Pedro Rossi, de dez anos, que assiste aos filmes da Marvel desde os seis, por influência de sua família.  Uma das tantas casas em que as pessoas têm um carinho especial por esse mundo fantástico.

Talvez João ainda não tenha percebido a totalidade disso: para ele, assim como para muitos outros fãs, os filmes dos estúdios e os heróis que os protagonizam são muito mais do que entretenimento. São as histórias que o inspiram, o lar onde habitam seus exemplos de vida e mesmo de onde retira conhecimento ou curiosidade para responder e fazer as perguntas mais estranhas nas aulas, sejam elas de física, história, biologia ou sociologia.

É bastante comum que essa associação não seja de fácil assimilação. Em geral, blockbusters são subestimados de diversas formas, tidos como matérias de baixo valor cultural, humano, reflexivo ou social. Logo, é simples concebê-los quando ligados à seguinte questão: como um conjunto de seres humanos superpoderosos, em roupas apertadas e tão fora da realidade, poderiam se basear no, ou influenciar o real?

A resposta é, de fato, muito ampla: de várias formas. Desde a filosofia, na construção da magia, até a influência na escolha de carreira de uma pessoa real. Assim, a realidade gira constantemente em torno dos mais de 30 títulos que compõe o “Universo Cinematográfico da Marvel” (“UCM” para os íntimos, do original “Marvel Cinematic Universe”, “MCU”), e de formas bastante inusitadas. Seja direta ou indiretamente, eles têm impacto sobre a psique e podem ser o estopim para as mais variadas e profundas discussões, mudanças e inspirações.

Nos estudos sobre comunicação, há uma proposta conhecida por “mito da objetividade jornalística”. Nela, é considerado impossível que um produto jornalístico, independente do assunto ou formato, seja completamente imparcial. E o motivo disso seria que, por trás de cada matéria, programa, imagem, palavra ou áudio, de cada processo em geral, há um ser humano com certa bagagem de mundo. Bagagem essa que pesa em seu subconsciente a cada etapa e que, consequentemente, interfere no resultado. E isso também se aplica a sétima arte.

Claro que o cinema não tem obrigação de ser imparcial ou objetivo, isso é fato, e não é disso que essa conexão se trata. Mesmo na ficção mais extrapolada, a realidade de seu criador se infiltra, pode ser na forma de metáforas, de linguagem verbal ou visual, mas, de alguma forma, está presente.

Em seu artigo, o autor Mauricio Ribeiro, graduado em Relações Internacionais, traduziu muito bem esse pensamento através da seguinte afirmativa: “Filmes nunca são objetivos ou culturalmente neutros, mas sim transcrições construídas da realidade, sendo sempre subjetivos. Podemos olhar para os filmes como ferramentas importantes para entender narrativas culturais particulares de eventos ou tópicos, sendo isto a constituição mútua da estética e da política internacional”.

E é nesse pensamento, e em alguns outros, que este texto se baseia. Na visão e nas palavras de tantos que vieram antes e que já sentiram o impacto proposto em um momento ou em vários, tendo ou não percebido isso.

Independente de formato, gênero, objetivo ou orçamento das produções, a visão de roteiristas, diretores e atores muda a dinâmica do filme. Cada um deles posiciona no enredo pequenas dicas, metáforas e contextos que têm o incrível potencial de fazer refletir, de gerar curiosidade e, direta ou indiretamente, transmitir conhecimento. Já há muito no que se pensar apenas com base nisso, mas se a ideia não parece concreta o suficiente, então relembrar os gêneros cinematográficos e suas especificidades pode ajudar.

Quando se fala que um filme é ficção ou ficcional, significa que nele há coisas de fora de nossa realidade, coisas impossíveis, mágicas. No entanto, o gênero é muito mais amplo do que isso. Algumas de suas subdivisões, como ocorre com a ficção científica, ficção histórica e muitos outros, determinam que um filme, para ser classificado nessa categoria, precisa tratar o irreal tendo base no real. Em outras palavras, precisa ter informação verdadeira, crível e provada, ainda que imersa ou acrescentada a ponto de se tornar apenas o estopim para uma realidade hipotética.

Ficção […]

2 Elaboração da imaginação; criação imaginária. […]

3 Produto da criação fantasiosa; fantasia. […]

5 LIT, CIN, TEAT Criação artística em que o autor revela uma leitura exclusiva e original da realidade.

EXPRESSÕES Ficção científica, LIT, TEAT, CIN, TV: obra artística cujo enredo se baseia numa visão fantasiosa, porém, muitas vezes, admissível a respeito dos desenvolvimentos científicos ou tecnológicos modernos.”

(Dicionário Michaelis)

Tudo isso, todas as possíveis informações, fatos, conhecimentos, experiências, críticas e traduções sociais, são consumidas por milhões de pessoas em todo o mundo. Uma escala que não é alcançada por outros métodos, ao menos não com tamanha facilidade. A realidade, mesmo mascarada por grandes efeitos, enredos fantásticos e outros atrativos de eficácia comprovada, ainda é a realidade. Entendê-la, mesmo que por metáforas e por suas implicações em vidas de personagens fictícios de outras galáxias ou universos, ainda é entendê-la.

ving. ulti

Fãs lotam cinema em Salvador para pré estreia de “Vingadores: Ultimato” Reprodução de: A Tarde

Os filmes, sejam da Marvel ou qualquer outro exemplo de ficção científica, têm a capacidade de traduzir teorias físicas de nível superior em uma conversa fiada de natureza cômica (quem não se lembra do “Assalto no Tempo”: “quando você viaja para o futuro, o presente se torna seu passado…” (Professor Hulk) que faz menção às teorias de Einstein?). Para além disso, eles também possibilitam que o expectador sinta a real sensação de ver um herói, um exemplo e, por vezes, um amigo que nunca se conheceu, passar pelas piores e mais dolorosas situações, e, por esse motivo, fazem refletir para além de mundos e problemas individuais. 

Exemplos para isso podem vir de todo lugar, de conversas aleatórias na rua até rolando o feed do Facebook em um momento de tédio. Nas redes sociais, mais especificamente em grupos de fãs do estúdio cinematográfico, as mais variadas discussões são iniciadas por um post que, inicialmente, era para ser apenas engraçado , um “meme”. Um exemplo visual de que um produto cultural e popular pode trazer um grupo para uma discussão política, social e científica ou se tornar um tópico difícil, aparentemente chato e sensivelmente distante, mais fácil de ser assimilado. 

Post de Germana Viana e comentários deixados nele

De forma direta ou indireta, em diferentes níveis, o UCM foi um marco na vida de pessoas ao redor de todo o mundo. Um símbolo para diferenciar um antes e um depois. Uma bandeira fortemente fincada na vida das bilhões de pessoas ao redor de todo o mundo que transformaram cinemas em estádios de futebol, vibrando infinitamente pelo retorno de seus personagens favoritos, celebrando seus feitos e lamentando suas perdas.

Vamos voltar para João Pedro, um menino de dez anos que ainda está se posicionando no mundo. Ele consegue assistir essas obras, contemplar problemas tão graves quanto o racismo no mundo, vê-lo sendo desenvolvido na vida de seus personagens favoritos e chegar à conclusão de que é algo socialmente errado. Um dia, possivelmente, essa criança vai se tornar um adulto com essas mesmas crenças e, consequentemente, seu legado para a humanidade será melhor por isso. E mesmo que ele encontre desafios em seguir com esse pensamento,  outro herói o ensinou a jamais desistir e a sempre lutar pelo que acredita. 

Um bom exemplo é o estudo Super-Heróis como Recursos para Promoção de Resiliência em Crianças e Adolescentes. Desenvolvido por um filosofo (Gelson Vanderlei Weschenfelder) e dois psicólogos (Chris Fradkin e Maria Angela Mattar Yunes), o trabalho trata a identificação de crianças “desfavorecidas psicossocialmente”, com as dificuldades que os heróis enfrentam em suas vidas fictícias.

Segundo os profissionais, “[…] as similaridades compartilhadas por esses dois grupos, super-heróis na fase Pré-Capa/Pré-Máscara e os riscos vividos por crianças e adolescentes menos favorecidos socialmente, podem ser a chave ou o motor de desenvolvimento para o empoderamento de pessoas que vivem uma multiplicidade de sofrimentos […]”. Eles relacionam isso a carência nacional por programas que promovam desenvolvimento individual e melhores condições de vida e de convivência social. Nesse sentido, criar exemplos onde há mitos seria uma, entre várias, das formas de suprimir essa necessidade e entrar em um caminho que levaria há oportunidades justas de expressão e, consequentemente, a um país menos desigual.

Com isso em mente, e uma visão bastante idealizada do mundo, é possível contemplar a questão: se todo o público do UCM, todas as gerações de homens, mulheres e crianças que lotam as salas de cinema ao redor do mundo forem atingidos por um terço do impacto que esse universo teve sobre João, o futuro que nos aguarda não poderia ser muito mais pacífico, igualitário e justo?

João Carlos Fuentes, em seu trabalho Super-Heróis e outros mitos modernos: aplicação pedagógica para reflexões filosóficas e formação ético-moral de jovens e crianças, pondera que  “desde a antiguidade, o ato de contar estórias tem um importante papel na formação intelectual, moral e ética dos indivíduos, e consequentemente da sociedade por estes formada”. E tudo começa nas crianças e jovens, por serem mais suscetíveis a sugestões e aos encantos de narrativas fantásticas.

Esta linha de raciocino se estende para a contemporaneidade. Com a diferença de que os heróis e mitos de hoje impactam em escala global. Muitos estudos, em diferentes áreas, sugerem essa ligação. Seja atribuindo à ficção o status de exemplo, de responsável por causar comportamento agressivo ou de recurso para que os jovens (futuros adultos) desenvolvam seu senso ético-moral da melhor forma possível.

Um possível, e bem recente, exemplo poderia ser o caso de Bridger Walker. O menininho, que tem os Vingadores como ídolos e heróis, que, em 2020, não pensou duas vezes antes de se colocar na frente da irmãzinha para protegê-la do ataque de um cachorro, se machucando no processo.

Bridger Walker após o incidente

Reprodução de: G1

Reação do público a cenas de Vingadores: Ultimato

Reproduçãoe: Canal Clip Channel

No UCM, a Manopla do Infinito é uma luva mágica, forjada no coração de uma estrela por anões ferreiros de experiência milenar, com o poder de sustentar o poder reunido das seis “joias do infinito” (“Infinity Stones”).

É ela que possibilita ao titã louco, Thanos, o estalo que acaba com metade da vida no universo e é por ela que se desenvolvem algumas das sequências de luta mais lindas e emocionantes do estúdio. Aqui ela será a base de sustentação que agrupa e organiza alguns conjuntos de conteúdos que irão culminar na afirmação: filmes blockbuster, em especial os filmes da Marvel, podem ser, e muitas vezes o são, mais do que apenas entretenimento.

Nos filmes, as singularidades, reunidas na manopla abaixo, representam conceitos chave para a existência do universo e de toda vida contida nele. Partiremos desses conceitos para a organização desta reportagem. Porém, o cosmos aqui referido é um pouco mais específico. Vale lembrar também que a totalidade de seu significado é um pouco divergente do que a definição científica, estando preso aos limites do “UCM”. Aqui, analisaremos a possibilidade de se ver esse material como fonte de conhecimento, inspiração e motivação.

Tempo será traduzido como história e, assim, a joia verde será a história da Marvel, desde que foi fundada até o que se conhece hoje;

A pedra azul que representa o Espaço representará o alcance que os filmes tiveram, os números que atingiram e as marcas que ultrapassaram;

O roxo da joia do Poder tratará o potencial inato a esses filmes, enquanto possíveis origens para conhecimento e transformação;

A gema da Realidade conversará com os pontos em que a ficção encontra o real, seja na ciência ou na sociedade e como isso se traduz em informação;

Mente se ligará a inspiração, em como é possível encontrar, nas jornadas dos heróis, os prelúdios para os mais diversos trabalhos, mudanças e decisões;

Por fim, mas não menos importante, a Alma refletirá as motivações e exemplos em que os filmes podem se transformar, dependendo de quem os assiste.

Clique nas joias da manopla a baixo, viaje através deste universo fantástico e pondere a questão: e se… os filmes da Marvel forem pensados como mais do que apenas entretenimento?